O conjunto de medidas anunciadas ou ampliadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao longo de 2026 já movimenta cerca de R$ 193,8 bilhões, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo. O cálculo reúne 20 ações com diferentes formatos, incluindo programas de crédito, subsídios, renúncias tributárias e aumento de despesas públicas. Entre as iniciativas mais recentes estão o reajuste do Bolsa Família e medidas anunciadas para tentar conter os efeitos da alta dos combustíveis.

O volume chama atenção porque ocorre em um ano marcado pela eleição presidencial. O governo, porém, rejeita a interpretação de que as iniciativas tenham finalidade eleitoral e sustenta que as medidas estão dentro das regras orçamentárias e respondem a necessidades econômicas e sociais.

O levantamento mostra uma expansão significativa do conjunto de ações ao longo do ano. Em maio, eram 11 medidas, estimadas em aproximadamente R$ 144 bilhões. Ao final de junho, o número havia chegado a 16 iniciativas, com cerca de R$ 180 bilhões envolvidos. Até quinta-feira (17), o pacote reunia 20 medidas e alcançava os R$ 193,8 bilhões.

Bolsa Família passa por reajuste de 15%

Uma das decisões mais recentes foi a atualização dos valores do Bolsa Família. O governo federal anunciou uma recomposição de 15,04%, elevando o benefício mínimo por família de R$ 600 para R$ 691.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), a correção considera a inflação acumulada medida pelo INPC entre março de 2023 e agosto de 2026. O benefício médio estimado também será ampliado, passando de R$ 675 para R$ 777. Os novos valores começam a ser considerados na folha de outubro, com pagamentos a partir de 19 de outubro, conforme o calendário do programa.

A medida representa uma despesa adicional estimada em R$ 5,8 bilhões em 2026 e aproximadamente R$ 22,7 bilhões em 2027, segundo informações divulgadas sobre a decisão. O impacto futuro deverá ser incorporado às projeções orçamentárias dos próximos anos.

O governo afirma que a atualização tem como objetivo recompor o poder de compra das famílias atendidas pelo programa, depois de um período sem reajuste pela inflação.

Combustíveis entram no centro das discussões

Outra frente que ampliou o volume de recursos mobilizados envolve medidas para reduzir a pressão sobre os preços dos combustíveis.

Segundo o levantamento divulgado pela Folha, o governo anunciou um pacote estimado em R$ 7 bilhões por mês, envolvendo subsídios e desonerações. Entre as medidas está uma subvenção de R$ 1 por litro de diesel, cujo impacto estimado é de aproximadamente R$ 5 bilhões mensais.

Também foi anunciada uma desoneração de PIS/Cofins sobre o etanol hidratado e a gasolina, com impacto calculado em cerca de R$ 2 bilhões por mês. A previsão inicial é de que essas medidas tenham duração até o começo de outubro, mas existe a possibilidade de prorrogação, dependendo das decisões do governo e das condições econômicas.

A justificativa apresentada pelo governo está relacionada aos efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio sobre o mercado internacional de energia e aos possíveis reflexos desses movimentos nos preços praticados no Brasil.

Parte das medidas não representa gasto direto do Tesouro

Apesar do valor total próximo de R$ 200 bilhões, é importante observar que as 20 iniciativas não possuem o mesmo tipo de impacto sobre as contas públicas.

Segundo o levantamento, nove medidas podem apresentar impacto primário, seja por aumento de despesas da União ou por renúncias de receitas. Em alguns casos, o governo busca compensações orçamentárias ou aumento de arrecadação.

As outras 11 medidas são, em grande parte, linhas de crédito com condições diferenciadas, utilizando mecanismos de garantia e recursos de fundos públicos. Portanto, o valor anunciado ou disponibilizado não significa necessariamente que todo o montante será desembolsado diretamente pelo Tesouro Nacional.

Essa diferença é importante para compreender o tamanho real do impacto fiscal. Recursos disponíveis para financiamento e gastos efetivamente realizados são conceitos diferentes dentro das contas públicas.

Move Brasil reúne R$ 30 bilhões em crédito

Entre as iniciativas de maior volume está o Move Brasil, programa voltado a motoristas de aplicativos, taxistas, entregadores e outros trabalhadores que utilizam veículos profissionalmente.

A iniciativa disponibiliza até R$ 30 bilhões em crédito para financiamento de veículos, com condições diferenciadas. O programa foi posteriormente transformado em política permanente, ampliando também o público atendido.

A proposta busca facilitar a renovação da frota utilizada por trabalhadores que dependem dos veículos para gerar renda. O BNDES participa da operação das linhas de financiamento, em parceria com instituições financeiras.

Por envolver crédito, e não simplesmente uma transferência direta de recursos, o funcionamento do programa precisa ser analisado de maneira diferente de despesas como benefícios sociais ou subsídios.

Minha Casa, Minha Vida recebe reforço

Outra medida anunciada em setembro foi o reforço de R$ 500 milhões no orçamento destinado aos subsídios habitacionais do Minha Casa, Minha Vida.

A decisão foi aprovada pelo Conselho Curador do FGTS e elevou de R$ 12,5 bilhões para R$ 13 bilhões o orçamento de 2026 destinado aos descontos para famílias enquadradas nas faixas 1 e 2 do programa.

Nesse caso, os recursos vêm do orçamento do FGTS, e não diretamente do caixa do Tesouro Nacional. O objetivo é garantir a continuidade das contratações e dos descontos concedidos às famílias beneficiadas.

Debate fiscal ganha importância

O tamanho das medidas também aumenta a atenção sobre a trajetória das contas públicas.

A equipe econômica trabalha atualmente com uma projeção de superávit de R$ 10,8 bilhões em 2026, mas novas estimativas de receitas e despesas deverão ser divulgadas na próxima semana.

Entre os pontos acompanhados pelo mercado estão as receitas provenientes de dividendos de empresas estatais e da tributação de dividendos. Caso a arrecadação fique abaixo do previsto e não seja compensada por outras fontes, poderá haver necessidade de revisão das projeções fiscais e eventual contingenciamento de despesas.

O Tribunal de Contas da União também alertou recentemente para o desempenho abaixo do esperado da arrecadação relacionada à tributação dos dividendos. O governo ainda deverá apresentar suas novas estimativas.

Medidas e o contexto eleitoral

O debate sobre o pacote ocorre paralelamente à campanha para as eleições de 2026. Uma pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro mostrou Lula com 46% e Flávio Bolsonaro (PL) com 44% em uma simulação de segundo turno. A margem de erro é de dois pontos percentuais, o que coloca os dois resultados dentro de um cenário de empate técnico. O levantamento ouviu 2.002 pessoas em 125 municípios entre os dias 15 e 17 de setembro e foi registrado no TSE sob o número BR-04029/2026.

Esses números ajudam a contextualizar o momento político em que as medidas estão sendo anunciadas, mas não permitem estabelecer, por si só, uma relação de causa e efeito entre as políticas públicas e o comportamento do eleitorado.

Também existe uma discussão jurídica sobre algumas iniciativas adotadas durante o período eleitoral. O TSE foi acionado pelo deputado federal Zé Trovão (PL-SC), que questionou o reajuste do Bolsa Família. Em decisão recente, o ministro André Mendonça rejeitou a ação por entender que o parlamentar não tinha legitimidade para apresentar aquele tipo de questionamento, sem entrar no mérito da legalidade do reajuste.

Governo defende responsabilidade orçamentária

Ao anunciar as medidas, integrantes do governo têm afirmado que elas seguem as regras fiscais e que existe diferença entre as ações atuais e iniciativas adotadas em outros períodos eleitorais.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que as decisões são responsáveis e estão inseridas no planejamento orçamentário do governo.

O debate, entretanto, permanece aberto. De um lado, o governo apresenta as medidas como instrumentos de proteção da renda, estímulo ao crédito, apoio a trabalhadores e enfrentamento de pressões sobre preços. De outro, especialistas e setores da oposição questionam o impacto fiscal e o momento em que parte dessas iniciativas foi anunciada.

Com quase R$ 200 bilhões mobilizados em 20 ações, o conjunto de medidas se tornou um dos principais assuntos econômicos e políticos do período pré-eleitoral. Para além da disputa de narrativas, o acompanhamento das receitas, despesas, execução efetiva dos programas e evolução das contas públicas será fundamental para dimensionar o impacto real das decisões tomadas em 2026.